A Arte em Nietzsche

O mundo tem sido, desde os tempos mais remotos, um grande teatro onde os atores e espectadores somos nós mesmos.

Nos olhos da existência, em qualquer momento, já fomos desde heróis até os mais terríveis vilões. Já vimos quase de tudo acontecer e, diante de nós, as cortinas nunca fecharam-se. Nossas almas então cansadas, despidas dos dias de glória e destinadas a sempre protagonizar e ver as barbáries que causamos a nós mesmos, transformam o tormento e o caos em algo que nos entorpece diariamente, tanto que nos acostumamos com a demência de tudo, muitas vezes já não nos importamos mais com o desenrolar das coisas. Estaríamos nós tornando-nos frios e insensíveis? Os noticiários estão sempre dizendo o mesmo, nada de tão surpreendente. Há décadas dentro de décadas estamos vivendo e retornando ao ponto inicial, nada muda, nunca saímos da rota, apenas damos longas voltas, cada vez mais distantes. E sempre, sempre a humanidade tem se encontrado perdida dentro de si mesma, como em um círculo vicioso, cujo movimento é constante e sempre contínuo.

O mundo é uma mistura de dores e deleites, desde a profunda ira até o mais suave encanto. E a dádiva que nos é dada através dos grandes iluminados – ou amaldiçoados – é o que até hoje tem mantido o mundo de pé. O que seria de nós, meros mortais, senão por aqueles que, mesmo em dias que a dor parece não mais ser suportável, em noites que parecem intermináveis, estão sempre presentes, de uma forma ou de outra? Estes ora angélicos, ora malditos, os quais chamo-os músicos, escritores, poetas, compositores, pintores. Nietzsche (1844-1900) nos traz em sua obra Humano, Demasiado Humano (1878) a Arte como “a grande possibilitadora da vida, a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida”. Segundo ele, “a arte existe para que a realidade não nos destrua”.

Uma vastidão desconhecida é o mundo, ao qual muitas vezes não temos a sensação de pertencer, mas é ela, simplesmente a Arte, que nos arrebata em seu colo nem sempre imaculado, em seu eco que ressoa em um silêncio gritante e que insiste em permanecer no coração dos homens. Embora a ela não seja dado o mérito maior pela sua importância em vivificar o que já desvanece nos recônditos mais vulgares do pensamento, ela é a força motriz que envolve e faz ansiar o homem, em seu subconsciente, pela busca do belo inatingível e pela eliminação total da racionalidade – esta que, por sua vez, é tida como o cerne da natureza humana e que por obrigação, deveria o homem por ela buscar, e por conseguinte, também tem levado as honras que de antemão caberia, ou deveria caber, única e exclusivamente ao feitio da mais pura e nua Arte em seu sentido maior, primordial, etéreo.

Nietzsche nos traz a percepção de que a humanidade é por si só incompleta, desorganizada e desestruturada, o que se confirma através de um olhar lançado sobre toda História do mundo até os dias atuais. No entanto, em Nietzsche é que a individualidade do homem toma novos espaços, sendo a Arte a transfiguração da desordem do mundo em beleza, o que torna aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida.

A reflexão acerca das virtudes do homem, seu comportamento e seus anseios, permite que se abra um parêntese sobre o que diz Nietzsche: acerca dos artistas em relação à fidelidade à Arte como um todo, de modo geral, tanto a subjetividade quanto a objetividade humana têm um papel fundamental nas transformações do modo de expressão, incorporação e apreciação daquilo que torna a ser considerado também como Arte, do que faz algo ser considerado Arte, o que toma a sua essência de modo instantâneo, o que dá forma ao seu conteúdo e faz com que todos os seus preceitos considerem o homem um ser artístico por natureza e não por escolha.

Crepúsculo da arte. — Assim como na velhice recordamos a juventude e celebramos festas comemorativas, também a humanidade logo se relacionará com a arte como uma lembrança comovente das alegrias da juventude. Talvez nunca se tenha visto a arte com tanta alma e profundidade como agora, quando o sortilégio da morte parece brincar à sua volta. […] Logo veremos o artista como um vestígio magnífico e lhe prestaremos honras, como a um estrangeiro maravilhoso, de cuja força e beleza dependia a felicidade dos tempos passados, honras que não costumamos conceder aos nossos iguais. O que há de melhor em nós é talvez legado de sentimentos de outros tempos, os quais já não alcançamos por via direta; o sol já se pôs, mas o céu de nossa vida ainda arde e se ilumina com ele, embora não mais o vejamos.

Atualmente a Arte sobrevive como um fantasma errante em meio aos escombros de um velho mundo em decadência, evocando os corações dos homens, falando aos ouvidos dos poetas, penetrando a alma do músico, instigando o escritor a buscá-la mesmo em meio a todo caos e provocando no pintor o anseio de expressar os mais profundos devaneios, as incógnitas que nem mesmo o seu âmago conhece. E é ainda nas fagulhas empobrecidas da Arte que a humanidade busca refúgio, é nos seus últimos resquícios que o mundo se sustenta, se ilude, se afoga ou, como o trágico fim de Nietzsche: enlouquece.

Mas a verdade é que, ainda que de modo antagônico, a Arte em seu último sentido, como princípio natural da ação e necessidade humana, dá voz ao inaudível: ela por si é o sujeito e o causador do próprio sentimento de êxtase que leva à perdição ao mesmo tempo em que ela é também a própria salvação. “Se considerarmos que toda ação de um homem, não apenas um livro, de alguma maneira vai ocasionar outras ações, decisões e pensamentos, que tudo o que ocorre se liga indissoluvelmente ao que vai ocorrer, perceberemos a verdadeira imortalidade, que é a do movimento: o que uma vez se moveu está encerrado e eternizado na cadeia total do que existe, como um inseto no âmbar.” (Nietzsche)

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