Memórias

Às vezes tenho a sensação de ser apenas uma desconhecida neste vasto mundo moderno.
As coisas acontecem sem querer, sem um prévio aviso, apenas acontecem. Estamos todos em meio a uma multidão nesta grande metrópole da vida, onde os olhares se encontram e desencontram em meio ao sufoco, empurrões para um lado e outro, calor, vozes, ruídos…

Definitivamente, às vezes – ou quase sempre – eu não sei para onde estou indo, ou para que lado caminha a humanidade. Mas em meio a essa vasta multidão, uma hora ou outra meu olhar encontra outro um olhar desconhecido e então as demais pessoas parecem se mover em câmera lenta onde tudo é preto e branco, e eu me lembro de coisas que não consigo me lembrar ao certo. Uma sensação estranha, um gosto familiar, e então eu me questiono: será mesmo ele um desconhecido? Eu tenho certeza que já o conheço de algum lugar, de algum tempo que é difícil lembrar com precisão. O olhar é tão familiar. É aquela sensação de que em algum lugar dentro do tempo já trocamos sorrisos, já conversamos sobre quase tudo enquanto tomávamos café em uma fria tarde de outono em Praga. Ou em algum lugar, algum outro lugar, qualquer lugar. Já tivemos em vários outros lugares.

Se não me falha a memória, também tenho a sensação de que já devo ter visto o mundo em suas épocas de glória ou em seus dias passados onde a decadência o assolou por dias e dias. Eu trago em mim o sentimento vívido de que sim, eu estive lá, nos séculos XVIII ou XIX, eu vi as transformações, eu vi o mundo se tornar mundo. É como uma velha canção ressoando de algum lugar, o soar das notas empoeiradas de um velho piano chegando até meus ouvidos, invadindo meu coração e entregando-me às sensações, ao estado natural de espírito, longe de qualquer substância material ou barreira: minha alma transcende além do espaço e tempo, e em um breve momento entre mundos e eras eu me encontro no meio do tudo e do nada. E lá estou eu de novo, saboreando a morna brisa da infância, como quando descalça eu corria com os cabelos soltos ao vento, corria como se o tempo encobrisse a certeza de que eterno só é o tempo. Nós apenas somos poeiras que atravessamos épocas e épocas, nos misturando neste solo abaixo de nossos pés e tornando a ver a luz do sol outra vez. Longe daqueles que outrora amamos, distante dos olhares em que nos perdemos. Mas algum dia, sempre é aqui que nos reencontramos mais uma vez dentre tantas outras vezes.

Todas as sensações armazenadas no fundo, no mais profundo ‘Eu’ que integra este ser que sou, são coleções do que minha alma viu e sentiu ao longo de toda existência, tudo me soa tão familiar. Temo ser a única pessoa a ter esse tipo de sensação, temo que talvez seja eu uma louca perdida entre meus próprios anseios, ou que até mesmo talvez tenha me perdido entre alguma das inúmeras páginas dos romances ingleses que costumo ler – talvez Emily Brönte me deva esta. É possível que eu tenha me entregado aos mais insanos deleites poéticos, tanto que agora vivo como se estivesse sonhando, ou apenas sonho enquanto vivo.

Embora eu não saiba como explicar, eu sinto saudades de tempos que nunca vivi – pelo menos nesta vida nunca estive em tais lugares nem vivenciei tais aventuras. Mas o que me preenche nos vazios das tardes – como sempre me acontece, sempre é uma tarde fria, sempre é a tarde que tem tomado parte em minhas memórias! – Mas como eu disse, eu sinto que por alguma razão, há muito tempo no meio dos séculos que já se foram, eu esqueci algumas flores amarelas em algum lugar enquanto as colhia em um campo qualquer, em um lugar frio e distante, nos tempos onde não havia tempo, nas montanhas do Norte e além. Quando todos corriam para as colinas enquanto as cabras pastavam nos campos, ou quando corríamos de volta para dentro de nossas casas em dias de tempestade. A brisa fria do vento, o hálito morno, cheiro de campo molhado… Eu sei, parece loucura, mas nada mais nítido que lembranças banhadas pelas saudades daquele vasto céu nublado com raios em toda parte, com trovões de fazer tremer o chão enquanto saudávamos com um bravo “hail, Thor!”. Creio que esta deva ser uma das mais antigas memórias que minha memória consegue captar. Nossas almas têm alguma coisa como um imã, penso. Pois dentre tantas memórias sem sentido – hoje, que não sabemos de mais nada, que as nossas origens põem à prova nossa fé ou a nossa razão, a certeza é que não temos certeza de nada, nem do que foi ou do que virá – dentre tudo isso, sempre tornamos a encontrar pessoas que nos são familiares, que por alguma razão nos intrigam ou nos tiram o sono, de dia ou de noite. Estaríamos nós escorrendo por entre as veias do tempo e nos reencontrando como sempre tem sido? Ou seria tudo isso fruto da mera imaginação humana, insana e doentia?

Definitivamente este mundo me deixa doente quando ponho o rosto para fora da janela da minha vida – do meu mundo – e observo o mundo lá fora. Eu não sei o que acontece com as pessoas que não se lembram, não sentem e tampouco ouvem seus âmagos. Em meio a essa multidão que me arrasta, que arrasta os nossos dias e toda nossa vida com o nosso tempo, eu pergunto sempre para onde toda essa multidão caminha, no que consiste toda essa jornada de encontros e desencontros, para onde estamos indo e se realmente estamos saindo do lugar ou apenas estamos dando intermináveis voltas e retornando sempre para o mesmo ponto inicial. Mas ninguém sabe responder – as pessoas me olham atônitas: elas parecem não entender quando falo, outras desviam o olhar, outras olham como se não estivessem me vendo, outras já não tem mais olhos, e nem corpo, nem alma, e é quando eu já não sou mais nada, quando eu já me dissolvi em meio a tudo isso, quando já me tornei parte de suas vozes, dos ruídos, quando eu própria já me tornei o silêncio de uma memória dentro de uma memória dentro de várias memórias…

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