Infância

Sabe aquela música que tocava no rádio quase todas as tardes quando você era criança e que nunca mais ouviu? E aquele cheiro de bolo assando, em um dia chuvoso, preenchendo cada cômodo da sua casa, da sua alma? O antigo álbum de fotografias na casa da avó, você consegue ainda lembrar do cheiro antigo? Dos porta-retratos na parede, das tardes de domingo ensolaradas, sorrisos, brincadeiras? Você se lembra o quão era gostoso brincar na praia, fazendo aqueles castelos de areia, ou de quando você pegava seus lençóis e fazia a sua “casa” no sofá e dizia: “mãe, eu vou embora morar sozinho(a)” ?

Você talvez tenha sido aquele tipo de criança que queria ser logo adulta ou, daquelas que não queriam crescer nunca – como eu. Se você se encaixa no primeiro caso, pois é, você cresceu. E agora possivelmente daria tudo para voltar a ser criança de novo, sentir os mesmos aromas da infância, ter de volta as mesmas sensações de como era bom dormir e acordar no dia seguinte com um mundo cheio de sonhos povoando a sua mente. Agora, se o seu caso é o segundo: estamos aqui, contra nossa vontade infantil, mas estamos. Eu cresci, em anos, experiências e aprendizados, mas no tamanho nem tanto assim. E você?

Engraçado como a vida trata de exercer a frustrada tentativa de nos adaptar a ela, seja pelo meio da dor ou por obrigação. Ela cobra, e tudo o que nos resta é ir tateando as paredes de seu longo corredor, firmando os passos para não cair, sem saber para onde estamos indo. E tudo o que nós ouvimos são os nossos ecos, são as nossas derrotas muito mais que nossas vitórias. Nossos amores e desamores, a nossa infância feliz que tornou-se essa correria.

Sabe esses momentos que você vive agora, quando olha para o nada e tenta se perguntar algo que nem mesmo você sabe o que é, e em um instante se cala? São só seus pensamentos confusos protestando contra você e isso que você chama de vida. São só suas ideias que nunca saíram do papel, pois você tinha um compromisso ontem, e amanhã você precisa estudar, trabalhar, e depois de amanhã já não pode porque você só lembrou agora que havia ficado de organizar suas pastas, suas gavetas… e sua vida nunca. E aquele amigo que você disse “hey, vamos marcar de sair qualquer dia desses”, ele já se foi e você nem se despediu. E depois já é segunda de novo e você tem outro compromisso, e depois você precisa estudar, trabalhar, e depois de amanhã já não pode de novo porque você nunca se lembra de que precisa viver.

Sabe aquela música que tocava no rádio quase todas as tardes quando você era criança e que nunca mais ouviu? Você pode procurá-la e ouvi-la novamente. E novamente. E quantas vezes quiser. Cante, mas cante bem alto, cante até que você se veja criança novamente.

E aquele cheiro de bolo assando, em um dia chuvoso, preenchendo cada cômodo da sua casa, da sua alma? Procure a receita, se nunca soube como se faz um bolo, está passando da hora, aprenda. Faça, mas faça com muito amor. Dedique a ele todas as boas lembranças, acrescente à receita um punhado de sorrisos, uma pitada de saudades. Saboreie com toda vontade do mundo.

O antigo álbum de fotografias na casa da avó, você consegue ainda lembrar do cheiro antigo? Dos porta-retratos na parede, das tardes de domingo ensolaradas, sorrisos, brincadeiras? Você pode procurar essas velhas recordações, aprecie cada uma delas, feche os olhos, viva-as novamente.

Você se lembra o quão era gostoso brincar na praia, fazendo aqueles castelos de areia, ou de quando você pegava seus lençóis e fazia a sua “casa” no sofá e dizia: “mãe, eu vou embora morar sozinho(a)” ? Por que não vai à praia? Faça um castelo de areia, o mais bonito de toda sua vida. Aquela criança que você foi um dia está bem aí, dentro de você, sentada no batente da sua alma, no canto, te olhando. Convide-a para brincar com você. E quanto a sua casa de lençóis: em uma versão mais modernizada e realística, ela é isso que agora eu, você, chamamos vida. Mas não desanime. Você foi criança um dia. E você sabe melhor do que ninguém como é viver, mas se esqueceu e não entende que você precisa deixar a criança dentro de você te mostrar como é ser uma novamente.

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