Pós-modernismo: a humanidade e a perda do sentido de continuidade

Com um mundo tão surpreendentemente modernizado, a geração atual possui dificuldades em identificar a consistência do que é real, fixo, sólido. Não bastasse a imersão em um novo modo de viver, um novo mundo inteiramente vasto e desconhecido, a humanidade também tem apresentado sinais de que ela vem se entregando cada vez mais à falta de solidez, não por querer, mas pelo não-querer que se aflora enraizado no âmago de toda a sua conjuntura social decorrente da falta de algo do qual não se quer perder o controle jamais, por já não ter vivenciado relações em uma estrutura social anterior mais sólida e estática.

A pós-modernidade se apresenta com uma vasta gama de fluidez em todos os sentidos. É a era das relações frágeis, onde o “não-querer”, o “evitar sofrer”, toma parte quando o contato físico dá lugar ao virtual, pelo medo da rejeição, pela facilidade de rejeitar, pela melhor forma de se obter um maior controle sobre a situação. Há uma alienação da importância da qualidade e uma supervalorização da quantidade, quanto mais, melhor. A falta de sensação, do toque aliados à facilidade em ter o que se precisa sem muito esforço, fez com que o ser humano construísse para si um mundo dentro de outro mundo com diferentes realidades, cercado por barreiras de utopias onde, no núcleo da ignorância, vive sob os escombros do paradoxo entre liberdade e segurança a um nível inconsciente.

Não é incomum encontrar pessoas que não possuem noção de convivência social, indivíduos que, pela engenhosidade humana de ter tornado tudo tão mais prático, acolhem suas necessidades e as realizam, em pleno alcance sem o mínimo esforço. São seres não-pensantes, não agregam nada de proveitoso, não compartilham do saber e nem o trazem, portanto, inutilizáveis. Tornam-se, por fim, indivíduos sem valor ou sem utilidade social.

O ser humano sente-se livre quando não o é, pois imagina estar vivenciando a sua plena realização como indivíduo, quando na verdade ele apenas se equivoca com a ilusão de “ser”, achando-se “algo” em “alguma coisa” quando na verdade ele apenas “está”, quando ele apenas faz o uso de “alguma coisa”, quando utiliza os meios, propriedades ou condições, sem, de fato, estar “sendo”. Ele não “é”, apenas “está”. Isso explica a decadência da humanidade, onde as pessoas não conseguem desenvolver ferramentas de socialização eficientes o bastante para uma conversa, e é exatamente nesse ponto da questão que se começa uma amizade virtual, um “amor virtual”. Não há relacionamentos, mas conexões. Não pela facilidade da conexão, mas pela facilidade da desconexão. Nos conectamos por que a relação não tem mais a mesma consistência, agora é frágil como uma conexão, e quando não temos qualidade, investimos na quantidade. Tudo é apenas uma nova forma de aprisionamento, uma nova delimitação das relações amorosas, uma nova configuração da maneira de amar. Um mundo irreal.

Não é de hoje que a sociedade não vive um momento de integração, de aproximação e concordâncias, mas é justamente agora, na pós-modernidade, que essas situações se intensificam. A coletividade é a razão do estrago social, ela tem sido o palco onde a exclusão, o afastamento e a discórdia se fazem presente. As prisões, por exemplo, ao contrário daquilo que foi dito por Foucault, não é lugar da disciplina, mas de vigilância e exclusão total. Prisões não “curam” ninguém. O preso é um sujeito vigiado e armazenado, mas não para ser disciplinado, ele não é mais útil e nem pode ser. É uma vida desperdiçada, um lixo humano. Um outro exemplo não-recente: posições políticas configuradas através de um culto exacerbado à figuras e ideologias políticas. Política hoje dificilmente se é levada à sério, tem se tornado um novo instrumento que se vê gradualmente tornando-se popular demais no sentido de ter sido posta na posição de algo ao qual fãs e torcedores fanáticos se manifestam com comportamentos animalescos e padronizados, vide Brasil e sua trupe ignorante e jocosa, onde o que realmente importa é de que lado você está e qual bandeira você levanta. Não há uma introspecção, não há a busca pelo conhecimento e nem diálogo sem ser tipicamente tachado como “fascista”, “comunista” ou “homofóbico”. O indivíduo deixou-se de sê-lo. Com uma carga histórica profundamente rica, mas igualmente incompreendida, a sociedade como um todo tem se tornado uma total aberração, nunca aprende, e agora não há como se aprender, não há ordem e nem quem se faça mantê-la. Os mesmos erros de uma sociedade estão em contínua repetição.

Com a modernidade tornada “evoluída” demais, não se pode mais matar o indivíduo que torna-se inválido, há o empecilho da moral sobre a conduta humana. Contudo, se faz necessário ter ambientes certos para a absorvê-lo e “reeducá-lo”, como a escola, a igreja, ou as prisões e as favelas. É necessário “normatizar” o estranho, e isso é um atentado contra a natureza humana que se vê indefesa e vulnerável, não por vantagem de sua condição em que se encontra, mas da ausência de senso crítico, da falta de capacidade individual de cultivo do saber, do egoísmo, tudo fruto da decorrência de tudo que impera neste “admirável” mundo novo, onde a coletividade torna os indivíduos meros aparatos úteis aos seus interesses, cobaias humanas, nada mais. A humanidade perde assim, o sentido da subjetividade, e neste caminho corre o risco de perder o sentido de continuidade.

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