Depressão: mais uma crítica à pós-modernidade

Vivemos a era das relações frágeis. Nunca antes o homem esteve unicamente reservado à companhia de si mesmo, isolado de todos os demais ainda que esteja sempre rodeado de tantos outros. À primeira vista, essa antítese parece equivocada, pois ao tempo em que o homem segue o seu percurso na sociedade, entre a facilidade e o prático, ainda que ele possa estar mais perto de ser considerado um senhor de si mesmo, uma espécie de deus moderno, mas nada de alto valor que ele possui ao seu alcance é um pecado e uma ofensa a ela próprio quanto à perda do alcance de si mesmo, quanto à dissolução de tudo aquilo que lhe torna humano, de fato.

O ser humano está perdendo, gradualmente, o sentido de humanidade. Outra das inumeráveis críticas à pós-modernidade é esta: quanto mais a sociedade avança e detém o conhecimento de tudo o que é motorizado, codificado, automatizado, mais o homem perde a sua essência natural. É certo que o homem, como ser natural, caminha em direção ao que possa suprir as suas necessidades. Mas esse processo é sempre contínuo, intenso e demasiado rápido, pois o instinto natural do ser humano o leva a ansiar sempre pelo novo, logo, as necessidades a serem supridas pelo homem são infinitas. Mas o problema é: até onde ele pode suportar?

Chester Bennington, vocalista da banda Linkin Park, foi encontrado morto hoje no quarto da residência onde morava na Califórnia. Causa: suicídio por enforcamento. Na data de hoje comemoraria-se o aniversário de Chris Cornell, vocalista do Soundgarden e amigo pessoal de Chester, também encontrado morto no dia 18/05, pela mesma causa. Ambos sufocados pelo mal do século: a depressão. Situações como essa levantam questões sobre a vida e a vulnerabilidade do ser humano.

A depressão decorre de inúmeras causas, e todo o conjunto dos fatores consequentes da estrutura social de nossos dias representam essas tais causas, eles acabam por comprometer o equilíbrio psíquico, o que provoca um aumento significativo dos quadros depressivos. Sabe-se hoje que as maiores taxas de suicídio são registradas nos países considerados “mais felizes”.

Segundo dados divulgados referentes a 2015 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em fevereiro deste ano, a depressão afeta cerca de 322 milhões de pessoas no mundo. Em 10 anos, de 2005 a 2015, esse número cresceu 18,4%. A prevalência do transtorno na população mundial é de 4,4%. Em 2015, 788 mil pessoas morreram por suicídio. Isso representou quase 1,5% de todas as mortes no mundo, figurando entre as 20 maiores causas de morte em 2015. Tudo só reforça a certeza de que a pós-modernidade é um dos maiores problemas do ser humano, senão o maior.

De acordo com dados do estudo “Dark Contrasts: The Paradox of High Rates of Suicide in Happy Places” (“Contrastes obscuros: o paradoxo dos altos índices de suicídio em lugares felizes”), de 2011, elaborado por pesquisadores da britânica Universidade de Warwick e pelos norte-americanos Hamilton College e a Universidade de São Francisco, os países mais destacados na “lista da prosperidade” de acordo com uma edição da revista Forbes daquele ano (a saber: os 10 países, eram, por ordem de primeiro a décimo, a Noruega, a Dinamarca, a Finlândia, a Austrália, a Nova Zelândia, a Suécia, o Canadá, a Suíça, os Países Baixos e os Estados Unidos), eram, ao mesmo tempo, os que apresentavam os índices mais altos de suicídio, o que acaba gerando um paradoxo intrigante que, ainda segundo os pesquisadores, tal paradoxo tem a ver com uma comparação entre o nível de felicidade dos suicidas e o nível de felicidade dos outros: a felicidade alheia seria um fator de risco para as pessoas de baixa autoestima, descontentes por viver em lugares onde o resto dos indivíduos demonstra mais felicidade do que elas.

“As pessoas descontentes podem se sentir particularmente cansadas da vida em lugares felizes. Esses contrastes podem aumentar o risco de suicídio”, diz o professor Andrew Oswald, da Universidade de Warwick e responsável pelo estudo. “Sendo os seres humanos expostos às mudanças de humor, as comparações com os outros podem tornar mais tolerável a nossa existência num ambiente em que os outros são completamente infelizes”.

Ainda que a depressão seja um problema em países com um elevado índice de qualidade de vida, ela não se limita apenas a esse fator, pois ela também tem se feito presente em grande escala em países onde os índices são o oposto. Nem o pobre e nem o rico estão livres deste mal. A depressão é a cria preferida da “super-mãe” pós-modernidade que, com todo o prazer e indiscrição, a alimenta e a faz crescer.

Em todos os casos, o suicídio como consequência da depressão, cada vez mais tem sido uma espécie de “válvula de escape” neste espectro social atual, onde o indivíduo tem se tornado um ser frágil, pois ele desaprendeu a construir relações sólidas (Bauman), a reconhecer a si mesmo e, sobretudo, a separar o que é real e o que é automatizado. É o início da perda do sentido de continuidade. É quando o organismo (sociedade vide Durkheim) entra em decomposição, quando o todo torna-se, de forma gradual, mecanizado.

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