Sobre o conhecer e o não-conhecer

“Conhece-te a ti mesmo.” Desperdício é tentar saber como é escrever com a mão do outro. Só cabe a um o domínio da sua própria escrita, assim como cabe particularmente ao outro o domínio de sua escrita – a caligrafia, o peso e a leveza da mão. Assim, não deveríamos nós desperdiçarmos tempo ao buscar saber como é o outro para então dizer “vê pois, eu o conheço”. Seria impossível de se adquirir tal conhecimento, dado que as particularidades individuais da coisa em si cabe somente à coisa em si – o conhecimento e tudo o mais que provém deste.

Não se pode conhecer o outro. Conhecer possui um sentido profundo, o qual somente quem conhece algo em si pode saber tal sentido que possui o conhecer.

Se não me conheço, como posso conhecer o outro?

Um copo com água em minha mão. Olho-o por algum tempo. Observo seus detalhes, a água límpida. E se digo que sei o que é a água – um composto de hidrogênio e oxigênio – sei mesmo que assim o é. Mas posso também dizer que a conheço? Saber e conhecer são diferentes atividades tais quais exerce o intelecto.

Tu conheces a água?

Como podes dizer que a conhece se não és tu também água? Como podes saber como é ser água? Como podes sentir como é ser água? Isso é conhecer.

Bebo então a água. A água está em mim. Posso agora dizer que a conheço? Ora, se não conheço a mim como deveria, posso também conhecer a água que agora se uniu a mim? De todo modo, não. E se passo então a buscar o conhecimento sobre mim, poderei eu afirmar que posso então conhecer a água? Também não. Em partes, sei como ela é, pois tenho-a sentido, sei como é o ato de tomar a água, porém continuo a não conhecê-la. Eu não sou água, logo, não a conheço.

Assim, ao fazermos juízo do que é conhecer algo ou alguém, ao dizermos que conhecemos, estamos dizendo que sabemos o que ou como tal é, mas não conhecemos. Ex parte cognoscimus, em parte deduzimos, em parte intuímos – pela interação entre dois corpos, dois meios, exterior e interior, e o que resulta de tal interação – como no caso da água e sua interação fisiológica.

A missão de conhecer, nosce te ipsum, é única e estritamente voltada ao indivíduo pois ele só pode conhecer a si mesmo, é ele próprio o fim em si mesmo, a coisa em si, o meio do qual se pode analisar logicamente as interações e consequências destas entre o exterior e seu interior, entre causa e efeito de si e em si mesmo.

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4 comentários sobre “Sobre o conhecer e o não-conhecer

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