Vinte e um outonos da vida.

Ainda ontem encontrei fragmentos de outrora, tempos em que versos falavam por mim, através dos poros – suor e lágrimas, que entre os dedos se iam e então, como virgem despida a beijar o papel: a ponta da caneta – eis o que os tomava: o santo imortal fôlego da vida. E os versos então tomavam vida, e em mim então a vida era vivida.

Ainda mais antes que ontem, um além-amanhã que veio e se foi na brevidade das horas, eu que era então ainda criança em um tempo primeiro no colo de minha mãe, no dia em que aos céus a tarde dizia ao tempo dourado que pousava sob a sombra das árvores após o meio-dia: “é tarde, é tarde. Acostuma-te, ó céu, com o que trouxeste: não haverá sossego que a acompanhe.” E ao tempo de cobre que pousava no horizonte ao fim do dia, a tarde dizia aos homens: “é tarde, é tarde, prepara-te, ó homem, acostuma-te com o riso da vontade, do buscar incessante e do canto da inquietude, pois tanto ainda é pouco, muito tempo é ainda demasiado pouco para aquela que veio.”

E assim foram-se vinte e uma primaveras. Não sem antes os outonos e invernos, partes estas que não se acham engrandecidas nas literaturas da vida de outrem, mas a verdade é que na minha, se não fossem os dias sem cores e as noites sem sabores, hoje não mais haveria flores a desabrochar. Digo pois, agora: devo muito mais aos meus outonos do que às minhas primaveras.

E a cada vez que as folhas amareladas e secas da minha história perdi ao vento, quando as renovei eu era ainda a mesma, porém mais sábia, mas ainda aprendiz. Uma eterna aprendiz. Muito eu deixei, muito disse adeus, tanto abandonei velhas crenças, tanto dei boas-vindas ao novo. E cá estou, florindo mais uma vez, e agora ao mundo digo:

– É cedo, é cedo, ó mundo. Acostuma-te com minha busca, com o meu desafio; lamenta porque ainda é cedo, demasiado cedo para tanto que quero importunar-te! Aguenta, ó mundo, o peso de meus sentimentos, a bagagem de minha alma, o fervor do meu amor à vida. E prepara-te, pois é inda cedo, demasiado cedo. Tenho muitas folhas a perder, mas sem antes de muitas vezes florir.

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