Notas sobre o sábado

Sábado é tempo de ficar de molho na vida. Eu tiro o casaco, desço do salto, digo adeus para o mundo e um olá para a minha existência. Somente hoje os antigos retratos na parede da sala me são tão convidativos. Eu passeio por eles, volto no tempo. Passeio em mim, sou moldura, foto, parede. Sou o tempo desregrado.

Recolho grãos de sol espalhados no meu quintal, rego os silêncios floridos jardim. Vou despindo minha pele, como o sol desnuda o dia a cada manhã. E a minha alma nua contempla as horas que pousam sobre fio, e no fio cantam dois passarinhos. Céu azul. Folhas marrons no chão.

Eu sempre fui alma, silêncio, sempre fui também cor, cor do dia em tons de laranja outonal – mas quem disse que hoje era outono? Era eu, somente eu a despir-me e perder-me no labirinto das coisas que crescem às margens do coração. E era ainda eu a desfolhar meus outros eus.

Um gato preto andando no muro. Um gato, preto, muro. Minha vida preta, um muro. Passando, cercada, andando. Sentindo. Eu vejo as cores do dia se pondo. E eu me ponho junto. Eu visto a noite como o final da tarde veste-a na linha tênue entre o ocaso e todos os acasos aninhados no meu mundo. O que tem depois do muro? Não existe depois. O depois é só a promessa de um agora que já não mais é.

E o sábado foi-se como as folhas vão por aí, por aí. Eu por enquanto ainda estou por aqui.

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