Cinza

O dia anda dentro das horas silenciosas, e dentro das horas um céu sem começo e sem fim: um sonho do azul adormecido pintado de névoa e cinza. Sobre as planícies onde acima o álgido vento corre, o dia passa e não acena: se perde entre as casas que respiram profundo nas ruas que levam a lugar nenhum, fitando os olhos do nada, trazendo para a vida o que as palavras não tocam. O dia nada diz, apenas sente.

Então com o vento, no tempo, o dia se vai. E, sem perceber, por entre aquilo que o silêncio sonda e a vida faz uma prece, lá estamos. Entre uma nota e outra, pendurados nas paredes da existência, com molduras douradas, somos o próprio silêncio pulsante que habita o segredo das coisas ocultas. E no interstício das harmonias que ecoam na brevidade de um suspiro diurno e outro, onde tudo se vai, tudo vem, se refaz, lá estamos nós de novo a desfazer as cadeias do tempo. Desfazemos as horas, mergulhamos em um sono onde a vida é real. E, dentro do sono, um sonho.

Um imenso mar de tempo inunda metade da vida cinza: mar e terra. A outra metade é apenas o cinza. Todos os segredos reunidos em um ritual: a comunhão dos devaneios adormecidos às margens da praia onde cresce o nosso campo de lírio – delírio. Areias do tempo, o mar da vida e o vento litorâneo de um dia fúnebre soprando a voz existencial, fazem uma prece no intervalo sonoro das ondas que vem e vão molhando nossos cabelos na areia fria onde repousam nossos corpos cansados da vida. Sob a luz esmaecida, pássaros negros nadam no cinza acima de nós. A vida no horizonte cinza e a vontade repousante sobre os ombros do vazio que reveste o vir-a-ser, quase nula, quase demasiadamente lânguida, observam o dia estático, cinza.

Sobre a areia da praia, o duplo viver em um terno abraço amigo. A cabeça recostada no peito, fora do tempo dentro de um sonho cinza – a vida é apenas o que dela fizemos: um sonho. Se tão somente pudéssemos contar as estrelas do céu e do mar, a precisão de nossas contas seria ainda a imprecisão de nossos desatinos. O viver, valer, não vale. Mas vale ainda o adormecer em um dia choroso e o acolhimento de um gélido infinito oceano – e com ele nos tornarmos também infinitos. Abolido do sonho foi o mundo: foi-se junto das andorinhas no final de tarde em busca do colo da noite negra que aninha todas as aves em seu mistério, aninhando também nossos prantos e dores.

Adormecer em um dia frio, no qual as conversas não falam, ouve-se apenas o som que faz a alma. O toque morno da pele aquecida em um abraço onde a cabeça descansa sobre o peito e o soar do suspiro do corpo que sonha profundo, a brisa fria da vida a beijar as frontes dos corpos-irmãos que repousam no leito sem mácula: eu e tu, nada mais. Adormecer, como adormece a vida no cinza do dia. Longe do sonho, da vida, de todas as coisas inventadas, dos olhos do medo e da própria crença do existir: a vida passa, um galo canta distante. O vento é ainda gélido. A vida é ainda a mesma. Os mesmos sons, o mesmo cheiro de mistério encapsulado no silêncio pulsante, o mesmo cinza. O dia anda dentro das horas silenciosas, e dentro das horas um céu sem começo e sem fim: um sonho do azul adormecido pintado de névoa e cinza. Sobre as planícies onde acima o álgido vento corre, o dia passa e não acena: se perde. A casa respira profundo em uma rua que leva a lugar nenhum. O dia fita os olhos do nada, trazendo para a vida o que as palavras não tocam.

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