O amor e o Eterno

A capacidade inatingível de sermos a completude que ansiamos, é sempre nula, por distintas razões. Quer-se sempre, nihil est satis, nada é satisfatório. Em Schopenhauer, o ser é ele mesmo o paradoxo entre o querer possuidor e o tédio da posse: enquanto não se há, não se é, e quando já o é, não se há mais.

As volições do ser se relacionam com o desejo mais profundo da busca da sua totalidade, da completude, do preenchimento do nada com um sentido como causa sui. Esta causa, por sua vez, apriorística em sua essência enquanto vontade primeira sobre a qual se debruça o homem na busca de algo que o realize em sua totalidade, totalidade esta que – embora existente apenas na ideia enquanto noção – é ainda por si desconhecida, e nesse desconhecimento, nessa vontade pelo querer, busca o ser conhecer e se tornar total, tanto quanto às realizações, quanto  ao anseio pela totalidade. Isso o faz se enveredar por todos os caminhos possíveis.

Mas o ser é finito. E por isso mesmo é infinito per se, justamente pela noção da finitude e das amplas possibilidades que constituem o viver. Pela finitude e brevidade, quer-se sempre o inatingível, o Eterno, Deus. E quando esta noção de eternidade remete à noção do tempo que se configura na ideia metafísica, pois aí o ser já não alcança, e por isso mesmo contrai para si a ideia de que no Eterno repousam todas as coisas. Ou seja, na noção dessa eternidade ele, o próprio ser, volta-se para si, e eis que então ele mesmo, encontra-se no Eterno de si mesmo, e por isso mesmo, infindo par excellence em suas vontades.

Mas quando essa concepção da vontade se volta para o amor, verdadeiro e único, o que liberta o ser de si e ao mesmo tempo o reconecta com sua essência, essa vontade abdica todas as demais outras pois, a completude, a eternidade e o infinito são, todos eles, constituído do amor por todas as coisas, pela necessidade, pelo vir a ser, o fogo eterno.

Quando a naturalidade das coisas se encontram sob a face do amor, reconecta-se então o ser não mais com a ideia do Eterno, mas torna-se ele parte da essência dessa infinitude e, por isso mesmo nada deseja, a não ser, ser ele mesmo em si amor, pelo simples fato de sê-lo, porque sua substância perdura e prova o sempiterno, e o amor não só convida ao mistério do outro eu no ser que completa o ser de outrem como é, ele mesmo, o próprio mistério, no qual reside o Eterno, e então a experiência real de que se reside nesse outro o infinito que se deseja sua preservação em plenitude, pois aí não há mais nada além da totalidade. Como dizia São Tomás de Aquino, “o amor é o desejo de eternidade do ser amado”.

O homem, em Sartre, é o ser capaz de, pela liberdade, modificar as coisas e assim, ser responsável pelo próprio destino que, a posteriori, será determinado pelas volições, já que a existência precede a essência, e é nesse plano que reside a liberdade da natureza humana. Os outros seres são predeterminados, o homem é livre, então ele nada mais é do que aquilo que ele faz de si  mesmo. Mas quando essa liberdade se volta para o amor, ela própria se abdica de si mesma enquanto essência, pois aí já não haveria um sentido de sê-la, enquanto logos, pois o amor em consonância com a substancialidade do Eterno, não necessitaria de uma razão para ser, de uma liberdade ou privação, e nesse ponto a liberdade já não mais teria sua equivalência, nem enquanto um signo, tampouco enquanto essência, pois esta por si é um conceito, mas o amor enquanto amor não se enquadra em conceitos. É amor porque se é, e é Eterno pelo simples fato de o ser.

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