Sobre o amor

O sentimento que ocorre para além dos sentires já outrora definidos, sem vaidades ou pretensões, é um amor em estado de graça, mas só o é quando nada se pede: ama-se porque se ama. É uma causalidade atemporal porque não está contido na condição arbitrária dos mecanismos das relações por meio de causas materiais, é consubstancial com o Eterno, etéreo, longânimo, bem como um contemplar que vê no além-visível as vicissitudes do mistério de todas as coisas e em todas as coisas.

É amor porque ocorre ao amante a transmutação interna, fazendo-o agir para o bem de si próprio, não pela vaidade de instigar no outro o desejo da correspondência, porque se assim for, tal ato não será mais consequência do amor, mas de razões puramente egoístas. Quando o sentimento em relação ao ser amado desprende-se do egoísmo das paixões e atua não como consequência, mas como causa do ato de a todo momento dizer sim à vida, esse tal sentimento evoca naquele que ama o melhor de si para si mesmo, e por isso é o que é. Amor é completude, unidade.

O sentimento em estado divino é união do ser com o ser amado em todas as coisas, que transcende a vida, excede os espaços porque não limita-se. É a vida em continuidade, é o ser sendo, o devir contínuo e eterno. Um amar que se volta muito para dentro é um ato de renascença em si e de si mesmo.

O amor é transcendente à própria palavra que o representa, não se limita ao signo, pelo contrário: o reduz à mera noção de seu significante, porque tal como a essência de Deus Uno, também o é, e por isso mesmo não pode ser conhecido a todos, porque não se ama com o amor, mas com a noção que se deriva dele, tendo em vista que a linguagem cria a palavra e, em metalinguagem, a define como sendo tal qual dizemos ser. Logo, não se há uma relação de inteireza quanto à sua substancialidade, apenas uma cogitação quanto a sua natureza, portanto, o amor é desconhecido em sua totalidade, mas em parte conhecido, tal como Deus. Logo, o amor assemelha-se à mesma natureza de Deus, portanto, tal como o Eterno, é também sagrado.

Para ser conhecido em plenitude, o amor em seu estado epifânico crescente remete à Eternidade, porque não se o é: está sendo, mas no estar sendo já é, ao mesmo tempo, a inteireza, porque tem a si mesmo como sendo pleno de perfeição. Logo, o amor é também um processo sincrônico sempiterno, já revelado a si por si mesmo em totalidade, nunca em parte, porque já o é completo em si mesmo, mas manifesta-se como sendo em parte porque a condição humana é demasiado efêmera diante de sua compleição, e que por isso mesmo possui a noção de seu aumento conforme o devir.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s